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terça-feira, 28 de novembro de 2017

Richard Levins sobre Ciência e Política (Vídeo)

Acabo de assistir a uma baita palestra em espanhol do matemático, cientista e ativista político Richard Levins (1930 - 2016). A palestra foi realizada na Universidad Nacional Autónoma do México (UNAM) há aproximadamente dois anos antes de sua morte (novembro de 2013; Levins faleceu em janeiro de 2016). Ao que parece, @s ouvintes são majoritariamente biólog@s em formação.

Richard Levins em 2015.
A palestra tem por título "Uma perna dentro, uma perna fora", em alusão ao modo como Levins entende que deveríamos nos posicionar na universidade. Para ele, como uma instituição social, a universidade carrega as contradições da sociedade capitalista. Nesse sentido, seria preciso compreendê-la de um ponto de vista crítico, dando-nos conta de que parte do conhecimento gerado nas universidades é estimulado, financiado e concretamente utilizado para fins que visam maximização do lucro e que, frequentemente, são prejudiciais à humanidade (como os casos, que ele cita, de indústrias de cigarro, farmacêuticas, de sementes e agrotóxicos, como a Monsanto, etc.). Devido a isso, ainda, certas perguntas não são colocadas e certas áreas de pesquisa ficam à margem, mesmo tendo alto potencial. É o caso, que ele discute com detalhe, da agroecologia. Como ex-agricultor em Porto Rico, tendo participado de movimentos camponeses e pela independência do país, tornando-se, posteriormente, ecólogo e biólogo evolutivo, Levins tem muito a nos dizer a esse respeito.

Ele nos alerta para o fato de que a ciência é resultado de um processo histórico; que é importante perguntar-nos por que colocamos as questões que colocamos e de onde partem as agendas de investigação. Mais do que isso, ele nos instiga a pensar para além do que as disciplinas especializadas nos colocam; a dar passos atrás e ver as questões de um ponto mais externo; a vincular problemas ambientais com problemas humanos e sociais (e vice-versa); a sempre se perguntar, enquanto montamos um problema de pesquisa, "onde o mundo entra?"; a ter, nas suas palavras, uma "visão do todo", "dialética".

Tudo isso (e muito mais) está no vídeo.
  • A palestra de Richard Levins tem aproximadamente 50min.
  • Ela começa aos 6min da parte 1 e vai até os 25min da parte 3.
  • A segunda metade da parte 3 e toda a parte 4 é de perguntas e respostas.
  • É possível utilizar a legenda automática em espanhol.
Essa palestra rendeu um livro de mesmo nome: "Una pierna adentro, una pierna afuera" (Levins, 2015), que pode ser baixado gratuitamente. Aproveito para divulgar, também, uma pequena autobiografia de Levins, caso alguém se interesse. E abaixo seguem os vídeos:

domingo, 10 de janeiro de 2016

Ciência e corte de verbas: esclarecendo minha crítica


Fico praticamente satisfeito com a tréplica do Leonardo. Farei apenas um comentário breve para expor um pouco melhor a “crítica que permeia toda a [minha] réplica”, como ele mesmo se referiu.

“não, eu não concordo com cortes de gastos na pesquisa brasileira; no entanto, compreendo os cortes frente à conjuntura atual;” (parágrafo 2)

“É claro que a ciência faz parte da construção de um país mais justo, mas ela não é prioridade frente a investimentos imediatos em politicas sociais, educação e saúde.” (parágrafo 6)

“É compreensível, portanto, que em um período conturbado os investimentos em ciência diminuam. É claro que a ciência deve ser um pilar nacional, mas convenhamos que os gastos em programas sociais e saúde são mais importantes para o povo brasileiro de forma imediata. E até mesmo essas áreas sofreram cortes. Se está ruim para o cientista na bancada, imagina para a família quem tem o bolsa família cortado.” (parágrafo 8)

Essas são citações retiradas do seu texto original. Eu considero que elas expressam uma falsa dicotomia. Concordo que se não há outra forma de proceder (de modo que é necessário cortar verbas da pesquisa básica, da saúde e de programas de assistência social), então é razoável pensar que o maior corte de verbas deve se dar na pesquisa básica em relação às outras duas áreas. No entanto, embora o consequente seja razoável dado o antecedente, discordo da razoabilidade do antecedente. É isso que tentei expor na minha réplica.

Imagino que o Leonardo não “pressupõe” os cortes como algo “inevitável”. Eu utilizei esses termos na réplica porque penso que o texto dele foi construído sobre essa base. Mesmo que ele não os considere inevitável, o texto, a meu ver, é trabalhado com o pressuposto da razoabilidade dos cortes na pesquisa científica. Parece-me que esse é um pressuposto que guia todo o texto. Em outros termos, entendo que a necessidade dos cortes é tomada como hipótese de trabalho. Minha crítica é exatamente em relação a essa hipótese de trabalho. O que expus na réplica foi atentar para o perigo que podemos correr em argumentar com base nesse pressuposto. Parece-me mais relevante criticar tal pressuposto à considerá-lo como hipótese de trabalho.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A ciência e o corte de verbas no Brasil: comentários sobre o post anterior

Essa postagem era para ser um comentário ao texto do Leonardo Luvison, que acaba de ser publicado aqui no Adaga. O texto dele tem por título O que as críticas ao corte de verbas de pesquisa científica no Brasil tem a ver com determinada concepção de ciência?. Como esse meu “comentário” ficou um pouco grande para uma caixa de comentário, fiz pequenas reformulações e decidi postá-lo como um novo texto. Então aí vai.


Entendo que as concepções sobre como a ciência funciona e como deveria funcionar precisam fazer parte de um debate explícito entre aqueles que efetivamente praticam a ciência. Esse debate é o coração da filosofia da ciência (enquanto investigação normativa) e da história e sociologia da ciência (enquanto investigação descritiva), mas entendo que ele não deve estar restrito aos filósofos, sociólogos e historiadores da ciência. Penso que uma discussão entre os próprios cientistas sobre a natureza da atividade científica (incluindo sua dimensão social) poderia contribuir para que eles tenham um melhor entendimento da ciência – a partir de uma visão geral sobre sua prática no contexto atual (tecnocientífico) e em relação aos objetivos ou ideais que deveriam regular a atividade científica – e de um estreitamento maior entre os cientistas e a sociedade. Além disso, esse debate poderia fomentar o desenvolvimento de uma Ciência Cidadã.

domingo, 1 de novembro de 2015

Vamos falar sobre carne?


Recentemente a Netflix lançou uma nova edição do documentário chamado Cowspiracy, e dessa vez com Leonardo DiCaprio como produtor executivo. Não que isso mude muita coisa, mas é um nome que chama a atenção e não aparece uma única vez no desenrolar do filme. O questionamento deste documentário dá-se pela voz e rosto de Kip Andersen. O seu ponto principal é: a Agropecuária é a industria mais destrutiva no planeta hoje e por que ninguém, nem mesmo as grandes organizações ambientais, fala a respeito?

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Sobre salsichas de abacate: inspirações da prática científica para a educação

Minha intenção aqui é fazer uma análise muito resumida e seletiva sobre os percursos do conhecimento - da descoberta ao ensino - e comentar algumas discrepâncias entre a prática e a educação científicas. O conteúdo é inspirado nas diversas conversas com meu amigo professor Daniel Rockembach e foi baseado também em um seminário apresentado nas "Jornadas acadêmicas da biologia da UFRGS" (vulgo Jaburgs), assim como o primeiro texto que escrevi aqui.


A prática científica

Afinal, como é feita a ciência? Talvez neste ponto alguns ainda pensem no clássico "método científico". Contudo, sabe-se que não há um método científico. Podemos pensar na utilidade daqueles passos tradicionais, como na figura abaixo, para um paleontólogo, por exemplo. Ele costuma fazer hipóteses e então ir ao campo verificar se os fósseis corroboram ou rejeitam sua hipótese? Geralmente, acho que não. Este e muitos outros tipos de pesquisa científica são feitos de um modo bem mais flexível. E mesmo nos casos em que há hipótese, experimento, etc. o procedimento costuma ser mais parecido com uma rede ou teia do que com uma sequência linear, saltando e voltando várias vezes de um passo a outro, mais ou menos como neste fluxograma.




segunda-feira, 30 de março de 2015

Além das janelas e maçãs: o mundo do software livre

Esse ano começou meio nerd para mim. Comecei a me relacionar um pouco mais intimamente com computadores e a entrar num mundo que me é relativamente novo: o mundo do software livre. Andei lendo sobre o assunto e resolvi compartilhar um pouco do que aprendi com os leitores desse blogue. Cabem aqui dois avisos sobre essa postagem. Primeiro: é uma postagem com uma carga ideológica considerável. Segundo: é uma postagem amadoríssima, portanto talvez seja decepcionante para quem tem algum conhecimento sobre software livre e informática em geral. Terceiro (quem lê dois lê três): Perdão, mas tem vários termos em inglês.

Uma atualização está disponível para seu computador. Linux: "Legal, mais conteúdo livre". Windows: "De novo não!". Mac: "Ó, só 99 dólares!".