Se esse sistema é o que rege nossa vida hoje, então certamente não podemos virar de costas para ele. Precisamos pressiona-lo para evitar retrocessos e tenciona-lo para conquistar mais e mais direitos. Democratizá-lo ao máximo. No entanto, isso precisa ser feito de fora, não de dentro do sistema; na luta de resistência pela base, não na negociação do alto dos gabinetes.
Ainda assim, é preciso ter clareza sobre os limites dessa luta. Ela tem potencial para produzir consciência política (de classe, raça, gênero, etc.) e ampliar direitos. Nesse sentido, é fundamental no presente e pré-requisito para um futuro emancipador. Mas ainda não traz o embrião desse futuro.

Certamente, as lutas reivindicatórias são cruciais. É só olharmos para a história para vermos sua força e suas conquistas. Pense nos movimentos por igualdade de direitos (como os movimentos negro e feminista), por exemplo. No entanto, nosso ideal ainda está longe de ser concretizado, o que mostra a necessidade em manter e reforçar nossa luta por direitos. Mas, como estou tentando defender, essa luta só é capaz de gestar o novo – a emancipação humana – em conexão com ações efetivamente prefigurativas. Reivindicar o novo reproduzindo as mazelas do velho não nos levará muito longe.

Não se trata de colocar um partido, que supostamente represente os interesses do povo, no controle dos aparatos do Estado. Isso não prefigura a emancipação. Não serve como fim nem como meio. Mantém intacta a concentração (e os mecanismos) de poder. O que queremos é completamente diferente, é democratização radical do poder. Tomadas de decisão construídas de baixo para cima em fábricas, bairros, colégios, clubes, universidades e em todas as instituições que mereçam futuro. Ampla participação e ampla difusão de poder. Relações igualitárias e libertárias em todos os âmbitos.
Não há dúvida que as ideias aqui colocadas formam a base para um projeto político de esquerda. Mas também é certo que boa parte dos projetos da esquerda são incompatíveis com estas ideias. Isso reforça uma tese já mencionada: a emancipação não virá do Estado nem dos partidos que buscam o controle do Estado. Ela precisa ser construída de baixo para cima, por meio da incorporação de práticas e valores que sejam condizentes com a emancipação. Estamos falando de um enraizamento na cultura popular.
Este projeto resiste não "apenas" ao interesse da direita e das classes dominantes, mas muitas vezes também à cooptação por projetos da esquerda estatista. Essa é uma constante nos movimentos populares (incluindo sindicatos). Esta busca por cooptação atua como uma força para manter a hierarquia (e, portanto, a concentração de poder) nos movimentos, de modo a facilitar a negociação entre burocracias (do Estado e dos movimentos). Assim, em vez de autônomos, muitos movimentos populares ficam atrelados fisiologicamente a partidos, a governos e ao Estado.
Projetos da esquerda libertária tem todas essas dificuldades e mais um pouco. Mas com um ideal tão distinto do que é promovido pelo sistema político-econômico-ideológico atual, ninguém deveria esperar facilidade. Com efeito, há duas opções: lutar por uma autêntica emancipação humana frente a todos esses impasses OU perder de vista esse ideal e aceitar o autoritarismo, seja ele executado por direita ou por esquerda.

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