domingo, 21 de fevereiro de 2016

O que a microcefalia pode ensinar sobre causação e sociologia da ciência



Grande parte da mídia se apressou em apontar como causa da microcefalia o vírus Zika. Mas normalmente os jornalista caem em dois erros:
(i) Mesmo que o Zika seja a causa, ele não é condição necessária nem suficiente para a microcefalia. Claramente é um problema com vários fatores.
(ii) A ligação entre dois eventos já é suficiente para o jornalista apontar que um dos eventos tenha causado a ocorrência do outro - nesse caso, o Zika causar a microcefalia. Mas causalidade não se descobre somente com correlação.

Caso contrário, poderia ser atribuido como causa do aquecimento global a diminuição do número de piratas no mundo, uma clara correlação que daria uma boa reportagem:


A associação temporal e geográfica do vírus com o aumento do número de casos de microcefalia fez com que os cientistas começassem a estudar mais profundamente essa relação. Uma outra hipótese levantada é a de que um larvicida que é utilizado na água potável, o pyriproxyfen, poderia ter relação com o aumento do número de casos de microcefalia¹, pois é muito aplicado nas regiões norte e nordeste do país.

Antes de estudos mais aprofundados, alguns cientistas já rechaçaram a hipótese de associação entre a microcefalia e o larvicida². A despeito das evidências favoráveis ao Zika, a atitude de alguns cientistas em ridicularizar essa hipótese causa certo estranhamento. Qual o grande problema de levantar como hipótese a relação entre o larvicida e o aumento do número de casos de microcefalia?

Uma explicação pode ser o fato de que a ciência possui verbas limitadas e a microcefalia requer um esforço conjunto: não podemos perder tempo com hipóteses fracas.

Vamos comparar, portanto, os argumentos usados para estudar o vírus e o larvicida, procurando entender porque estudar o larvicida é ridículo e o vírus é uma boa questão científica:

1) O argumento para estudar o pyriproxyfen é baseado em uma correlação: esse larvicida é muito utilizado nas regiões onde houve aumento da microcefalia. Ele age no sistema de desenvolvimento do inseto. Uma possível alteração no desenvolvimento do homem pode ser questão de estudo.
2) O argumento para estudar o Zika como (uma das) causas da microcefalia é o mesmo: houve um aumento do número de notificações de microcefalia em regiões que o Zika estava circulando mais. Os vírus podem causar alterações nas células humanas, como os neurônios. Alguns vírus também podem estimular uma resposta imune que danifica o próprio hospedeiro. Efeitos neurológicos e no sistema imune causados pelo Zika virus podem ser questões de estudo.

Agora vamos ver os contrapontos para ambos fatores causais, para entender porque podemos descartar o pyriproxyfen ou o Zika:

(1.1) O larvicida foi usado em outras regiões do mundo e a sua segurança já foi "testada".
            -" ora, sabemos que normalmente esses testes não envolvem estudos a longo prazo...".
(2.1) O Zika circula em outras regiões do mundo e em muitos lugares não existe um aumento no número de casos de microcefalia
            - "essa crítica também não significa tanto, pois os vírus são tão variáveis que as cepas podem ter efeitos distintos. Um exemplo bem estudado é dos subtipos do HIV".

Sem levar em conta evidências adicionais, a recusa do pyriproxyfen não parece do terreno da razão, mas da sociologia da ciência. 

É verdade que atualmente temos bons indicativos da participação do Zika no aumento de casos de microcefalia³.  Pesquisadores já conseguiram isolar o vírus em autópsias de crianças com microcefalia. Mas ainda é preciso estabelecer uma relação mais clara, porque somente a presença do vírus não é sinal de que ele seja o causador da doença. É preciso estabelecer estudo tipo caso-controle, em que um grupo de indivíduos com Zika é comparado com outro grupo de indivíduos sem esse vírus. 

Essa epidemia não serve apenas para mostrar como o povo replica boatos infundados e cria teorias da conspiração (como a de que os cientistas estariam escondendo os possíveis efeitos do larvicida), como alguns pesquisadores insistem em argumentar. Também serve pra mostrar como os próprios pesquisadores podem ser dogmáticos quando os holofotes estão sob suas carreiras e o investimento de seus grupos de pesquisa estão em jogo. A ciência pode ser bastante excludente. Talvez isso faça parte de seu funcionamento, mesmo que futuramente algumas de suas conclusões sejam revisadas.



¹ http://www.naturalnews.com/files/Informe-Zika-de-Reduas_TRAD.pdf
² http://epoca.globo.com/vida/noticia/2016/02/o-que-o-boato-sobre-o-larvicida-que-causa-microcefalia-diz-sobre-nosso-medo-de-epidemias.html
³ http://www.nejm.org/doi/pdf/10.1056/NEJMoa1600651



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