quinta-feira, 12 de julho de 2012

Aparência e Realidade



Em decorrência dos 50 comentários em uma postagem no grupo Adaga de Occam do "facebook", que tiveram início pelo texto Livre arbítrio? Mas tu tá louco... do Paulo Barradas, trago aqui uma questão que respondi para uma disciplina de filosofia na UFRGS. Trata da [necessária] distinção entre aparência e realidade.

Questão) 

De modo geral (excetuando-se situações excepcionais de engano perceptivo) costumamos supor que nosso aparato perceptual fornece um acesso direto ao mundo como realmente é. Muitos filósofos (e cientistas!), no entanto, colocaram essa suposição em questão. Bertrand Russell é um exemplo: no texto  Aparência e Realidade, referindo-se a um caso específico de percepção visual, defendeu que “a mesa real, se existe, não é de modo algum imediatamente conhecida por nós, tendo antes de ser uma inferência do que é imediatamente conhecido”. Apresente uma argumentação análoga àquela empregada por Russell para dar suporte a essa conclusão, alterando o exemplo e usando, na medida do possível, suas próprias formulações. 

Resposta)

Se fazemos a distinção entre realidade e aparência, estamos inevitavelmente pressupondo que (a) existe uma realidade independente do sujeito e (b) a realidade não é diretamente apreendida pelos sentidos. Eu acrescentaria que, mesmo que (b), a realidade pode ser conhecida, embora de maneira parcial, aproximada e constantemente melhorada. Essa tese que defendo é denominada realismo científico. Penso que a distinção entre realidade e aparência é extremamente importante, porque quando deixamos de utilizá-la caímos em filosofias obscuras e anti-científicas tais como o fenomenalismo, realismo ingênuo, construtivismo, relativismo, entre outras filosofias que esposam o antigo irracionalismo e que, com algumas modificações, parecem estar em moda nos últimos tempos – muitas das quais estão unidas pelo que se chama “filosofia pós-moderna”, que rejeita os valores intelectuais do Iluminismo, em particular a clareza, a racionalidade, a consistência e a busca por uma verdade objetiva [1, 2].

Junto com a distinção entre realidade e aparência, me parece interessante a distinção phaenómenon (fenômeno) e noumenon (númeno) atribuída à Kant. Phaenómenon se refere às coisas-para-nós, ou como são percebidas; em contrapartida, noumenon refere-se às coisas-em-si. Isso nos leva a uma distinção similar, que é entre propriedades primárias, aquelas independentes do sujeito, e propriedades secundárias, aquelas que emergem na interação sujeito-objeto. Uma evidência importante que deveria refutar boa parte das “filosofias pós-modernas” é a de que podem existir númenos sem respectivos fenômenos, tais como (a) ondas sonoras sem barulho, (b) pequenas diferenças em comprimentos de onda luminosa sem diferença na percepção visual, (c) interações gravitacionais fracas sem sua percepção, etc. Ou seja, as ciências físicas, químicas e biológicas não são redutíveis à psicologia, como parecem pretender os fenomenalistas [1].

Uma evidência para a necessidade de distinção entre aparência e realidade é a que foi mostrada acima, qual seja, a de que podem existir coisas reais sem que tenhamos sensações. A partir daí, notamos que a realidade não limita-se às aparências. Se, além disso, mostrarmos que em certos casos as aparências podem nos iludir, percebemos que a realidade, além de não limitar-se a aparências, não pode ser apreendida diretamente por meio dos sentidos. É isso que Russell aborda no seu exemplo da mesa e sua relação com a percepção visual.

Para exemplo, escolhi um caso que também se refere à visão: um canudo com uma parte imersa em água dentro de um copo tem sua parte inferior (imersa em água) maior e deslocada em relação à parte superior (imersa em ar). Se tirarmos o canudo da água, veremos que ele se mantém com o mesmo diâmetro e sem deslocamento ao longo de seu comprimento. Nesse caso, podemos utilizar a mesma proposição de Russell, “[o canudo real], se existe, não é de modo algum imediatamente conhecido por nós, tendo antes de ser uma inferência do que é imediatamente conhecido”. Penso que esse argumento dificilmente consiga ser contestado e por isso parece importante a distinção entre aparência e realidade. A dificuldade em contestar tal argumento reside no fato de que podemos fazer experimentos controlados simples e mostrar a mudança que ocorre no canudo quando o tiramos da água, ou a mudança na cor ou brilho da mesa quando alteramos nossa posição em relação à luz refletida. São exemplos simples que mostram que realidade não é sinônimo de aparência.

1.        [1] Caçando a Realidade – a luta pelo realismo, Editora Perspectiva (Mario Bunge, 2010)

2.        [2] Manifesto de uma moderada apaixonada – ensaios contra a moda irracionalista, Editora PUC-Rio (Susan Haack, 2011)

4 comentários:

  1. Muito boa resposta e exemplos...
    Podemos construir dispositivos sensíveis a esses nômenos que nossos sentidos não detectam. E mesmo eles, como nós, são falíveis e dão uma ideia aproximada da realidade. Todo dispositivo de medida tem um erro associado... quando medimos algo que não existe (imagine uma variável cujo valor é 0 e determinada situação), os instrumentos podem indicar valores acima ou abaixo da realidade (oscilantes entre -1 e 1, por exemplo, de forma análoga a uma pessoa que tem ilusões). Dessa forma, uma melhoria na acurácia e precisão desses dispositivos faz com que avancemos rumo a realidade...

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  2. Boa, Charão.
    Quanto ao teu comentário "Dessa forma, uma melhoria na acurácia e precisão desses dispositivos faz com que avancemos rumo a realidade", concordo; mas deve ficar claro que isso é apenas parte da aproximação com a realidade. Não podemos confundir a realidade com testes de realidade, se não caímos no operacionismo. Penso que o principal fator que nos aproxima da realidade é a formulação de teorias, mais do que medições empíricas, gerais que se adequam aos dados (para isso precisamos medir, sem dúvida). Por isso, pra mim, para analisarmos o quanto uma ciência está avançada teríamos que olhar mais para suas teorias (e o quão consolidadas estão) do que para observações, medições e casos específicos descobertos. Porque se essas observações isoladas passam a ser incluídas num sistema teórico, parece que há um grande avanço aí.

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  3. O Bunge fala de alguns meios para o progresso epistêmico:
    1. crescente precisão dos dados empíricos (como o Paulo comentou);
    2. substituição de hipóteses não relacionadas por teorias e de modelos verbais por matemáticos (como eu comentei, em parte);
    4. substituição de teorias de caixa-preta por outras, de caixa-translúcida; e
    5. interrelação ou mesmo fusão de campos de pesquisa previamente isolados.

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