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Karl Popper (1902 — 1994), um dos principais filósofos da ciência do século XX. |
No entanto, como esse critério deve ser
aplicado? A falsificação é frequentemente ambígua, e a definição acima não nos
diz nada sobre quando e o que falsificar. Daí a necessidade, para Popper, de
regras metodológicas. Ele afirma:
“Importa distinguir claramente entre
falseabilidade e falsificação. Introduzimos a falseabilidade apenas como um
critério aplicável ao caráter empírico de um sistema de enunciados. Quanto à
falsificação, deveremos introduzir regras especiais que determinarão em que
condições um sistema há de ser visto como falseado.” (LDPC, p. 91)
Mas em que consiste a ambiguidade da
falsificação? Quando os cientistas estão a testar teorias, de modo a descobrir
se previsões decorrentes da teoria são corroboradas ou não pela experiência,
esse teste é sempre realizado em condições especificadas e com a ajuda de
hipóteses auxiliares. Disso decorre que uma teoria não é testada isoladamente,
mas em conjunto com outros enunciados. O que está em teste, portanto, é um
sistema mais amplo de enunciados. Podemos dizer que esse sistema é composto
pela teoria (T), por condições iniciais (CI) e por hipóteses auxiliares (HA).
Se o experimento construído para testar a teoria fornecer dados que refutam a
previsão esperada (P), como escolher o componente do sistema a falsificar? É um
problema com a teoria ela mesma, com os instrumentos de medida, com o desenho
experimental? Nisso consiste a ambiguidade da falsificação. Podemos expressá-la
da seguinte forma:
1) (T) ^ (CI) ^ (HA) → (P)
2) (~P)
:. (~T) v (~CI) v (~HA) v (~T ^ ~CI) v (~T
^ ~HA) v (~CI ^ ~HA)
Essa ambiguidade da falsificação se torna
um problema para Popper na medida em que a principal virtude de seu projeto era
evitar a “ambiguidade da verificação” inerente aos empiristas lógicos e, mais
amplamente, a todos que interpretavam a ciência como uma atividade que utiliza
juízos indutivos. Se a verificação não era conclusiva, tampouco o é a
refutação. Essa ambiguidade enfraquece o projeto de Popper no sentido de que a
racionalidade científica não poderia se acomodar a simples recorrências do modus tollens. Mesmo que essa
racionalidade envolva um processo hipotético-dedutivo, este não lança luz sobre
o que se deve refutar. Esse processo, portanto, não é suficiente para explicar
o modo como se dá (e deveria se dar) a refutação. Essa lacuna precisa ser
preenchida por “regras” adicionais. Popper apresenta algumas regras, tais como
se utilizar o mínimo possível de hipóteses ad
hoc, e que essas hipóteses façam mais do que apenas salvar a teoria,
devendo trazer novas predições. Mas uma série de problemas com essas regras vão
enfraquecendo seu projeto ainda mais, até que de um início bastante claro e
normativo, suas propostas acabam ficando mais vagas e menos normativas. Nesse
sentido, ao mesmo tempo em que podemos reconhecer o trabalho árduo de Popper e
dos empiristas lógicos, podemos também nos perguntar se o trabalho do primeiro não
mostrou limitações tão fortes quanto o dos segundos.
Dois
exemplos.
1. A
teoria newtoniana previa uma órbita
para o planeta Urano que não era corroborada pelas observações astronômicas. Os
newtonianos – e praticamente toda a comunidade de especialistas – não rejeitaram
a teoria de Newton. Em vez disso, postularam (na versão dos convencionalistas;
conjecturaram, na versão dos popperianos) a existência de fatores que
perturbariam a órbita de Urano. Tal foi o caso de Adams e Leverrier que, por
volta de 1845, atribuíram a discordância da observação com a teoria pela
presença de outro planeta (Netuno), o que posteriormente foi evidenciado. No
entanto, é preciso levar em conta que essa conjectura não era testável naquele momento.
Isso nos permite pôr em dúvida se tal hipótese (ad hoc) é legítima na atividade científica. Retrospectivamente,
vemos que o apego à teoria newtoniana permitiu o avanço no conhecimento sobre a
trajetória de Urano, além de inúmeros outros avanços. Mas esse apego nem sempre
é virtuoso. Não deve fazer parte do ethos
científico salvar uma teoria frente a toda e qualquer observação que lhe é contrária.
Isso torna as teorias imunes aos dados empíricos. Nesse momento, o que estamos
a fazer não é mais ciência. No entanto, como estabelecer critérios de
legitimidade para o compromisso com uma teoria? Jogar a teoria fora frente à
primeira anomalia também não parece ser a atitude mais sensata. A dificuldade
de responder a essa questão decorre justamente da ambiguidade da falsificação.
2. A
teoria darwiniana incorpora um
gradualismo na modificação de espécies, no processo chamado especiação. Darwin
argumenta em favor desse gradualismo a partir da imperfeição dos registros
fósseis. Para que um fóssil seja preservado, são necessárias muitas condições
ótimas. Por isso apenas uma pequena amostra dos seres que viveram sobre a Terra
estão preservados em fósseis. Além disso, outras muitas condições são
necessárias para que o fóssil seja encontrado e incorporado ao conhecimento
científico. Darwin se utilizou disso para defender seu gradualismo, que era
contradito pelos registros fósseis. Não se encontrava nos fósseis a mudança
gradual prevista pela teoria darwiniana. Nesse sentido, em que medida a
argumentação de Darwin é legítima? Sua teoria deveria ter sido falseada pela
falta de evidências fósseis em seu favor? Em retrospectiva, vemos que o apego à
teoria darwiniana foi extremamente fecundo. Boa parte dessa teoria é aceita
pelos cientistas atualmente (e não há dúvidas consistentes quando à ocorrência
do processo evolutivo), mas não há um compromisso tão forte, como tinha Darwin,
com o gradualismo.
Permitam-me continuar com esse exemplo, mas
no intuito de abordar outras questões, as quais tem a ver com os rumos da
biologia evolutiva. Hoje em dia o número de fósseis registrados pela ciência é
muito maior e sua interpretação é muito mais robusta. Pode se dizer com maior
razoabilidade que nem sempre as linhagens passam por um processo contínuo de
pequenas modificações. A taxa de modificação irá depender de diversos fatores,
e não é preciso um compromisso teórico sobre a velocidade das modificações para
reconhecer o potencial que teve a teoria darwiniana. Da mesma forma, podemos
reconhecer a fecundidade da Síntese Moderna da Evolução (formulada nos anos 30
e 40) sem comprometermo-nos com toda sua arquitetura teórica. Esta pressupõe o
gradualismo darwiniano e inclui um externalismo (o organismo é passivo no
processo; sofre a pressão evolutiva) e um genecentrismo (o gene como unidade
primordial de herança). Ninguém deveria negar o papel crucial que teve a
Síntese Moderna; mas, frente aos novos achados empíricos e a novas articulações
teóricas, é difícil defender que essa perspectiva deva continuar sendo o paradigma da biologia evolutiva. O
momento atual coloca aos biólogos (e filósofos) reflexões mais profundas sobre
a estrutura teórica da evolução e sua relação com os dados empíricos. Esse
momento requer mais do que solucionar mini problemas no interior do paradigma
da Síntese Moderna; requer reflexões sobre os pressupostos da Síntese à luz da
biologia contemporânea; requer o debate crítico e público entre especialistas a
respeito de como avançar nas propostas teóricas da biologia evolutiva. Para
quem quiser pensar mais a fundo sobre essas questões, deixo um artigo (de 2015) que considero fundamental: